Hanseníase: O Espectro Imunológico e o Dano Neural
“O bacilo de Hansen é um parasita intracelular obrigatório com um tropismo cruel: ele busca a célula de Schwann nos nervos periféricos. A batalha entre o sistema imune e o bacilo determina não apenas a forma clínica, mas o destino funcional do paciente.”
A Hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae (e mais recentemente, M. lepromatosis). Caracteriza-se por sua altíssima infectividade, mas baixa patogenicidade (a maioria das pessoas é resistente).
No entanto, nos suscetíveis, a doença se apresenta como um espectro clínico-imunológico fascinante e devastador.
Quiz: Hanseníase (Hansenologia)
Autoral: Portal SaudeAZSelecione o nível de conhecimento:
Estudante / Público
Sintomas cardinais, transmissão e cura.
Residente / Clínico
Classificação operacional, PQT e efeitos adversos.
Hansenologista
Imunopatologia, fenômeno de Lúcio e neurólise.
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Resultado Final
Aprofunde-se nos temas:
1. Imunopatologia: A Classificação de Ridley e Jopling
A apresentação clínica depende exclusivamente da Resposta Imune Celular (Linfócitos T) do hospedeiro contra o bacilo. O espectro divide-se em:
Polo Tuberculoide (TT) – A Resistência
O paciente possui alta imunidade celular (Resposta Th1). Forma-se um granuloma bem delimitado que “cerca” o bacilo. Clinicamente, há poucas lesões (placas), bem delimitadas, com anestesia completa e baciloscopia negativa. O dano neural é localizado e grave.
Polo Virchowiano (VV) – A Anergia
O paciente tem falha na imunidade celular específica (Anergia) e predominância de resposta humoral (Th2 – anticorpos ineficazes). O bacilo se multiplica livremente. Clinicamente, há lesões difusas (nódulos, infiltração), madarose (queda de sobrancelhas), fácies leonina e acometimento visceral. A baciloscopia é ricamente positiva.
O Grupo Dimorfo (Borderline)
Entre os polos, existe uma zona instável (BT, BB, BL). É o grupo mais comum e o que mais sofre com reações imunológicas agudas, causando dano neural rápido e incapacitante.
2. Diagnóstico: O Olhar Clínico Soberano
No Brasil, o diagnóstico é eminentemente clínico e não depende de exames complexos para ser iniciado. Baseia-se em:
- Lesão de pele com alteração de sensibilidade: A ordem de perda é térmica → dolorosa → tátil.
- Espessamento de tronco nervoso: Nervos ulnar, fibular comum, tibial posterior e auricular magno são os mais afetados.
- Baciloscopia de raspado intradérmico: Coletada de lóbulos de orelha e cotovelos. Positiva nos multibacilares, negativa nos paucibacilares (mas não exclui a doença).
3. Tratamento: A Poliquimioterapia (PQT)
A cura é obtida através da PQT, fornecida gratuitamente pelo SUS. A classificação operacional da OMS simplifica o tratamento:
Esquemas Terapêuticos no Brasil
- Paucibacilar (PB): Até 5 lesões de pele. Tratamento de 6 meses com Rifampicina (mensal) e Dapsona (diária).
- Multibacilar (MB): Mais de 5 lesões. Tratamento de 12 meses com Rifampicina, Dapsona e Clofazimina.
Nota: A Clofazimina causa uma pigmentação acastanhada/avermelhada reversível na pele, o que exige aconselhamento prévio ao paciente.
4. Estados Reacionais: A Emergência na Hanseníase
Mesmo durante ou após o tratamento, o sistema imune pode “acordar” ou desregular, causando inflamação aguda. É a principal causa de dano neural irreversível.
Reação Tipo 1 (Reversa)
Ocorre nos formas dimorfas. Aumento súbito da imunidade celular. As lesões antigas ficam vermelhas e edemaciadas (neurite aguda). Tratamento: Prednisona em dose imunossupressora (1-2mg/kg).
Reação Tipo 2 (Eritema Nodoso Hansênico)
Ocorre nos virchowianos. Mediada por imunocomplexos (excesso de TNF-alfa). Nódulos vermelhos dolorosos, febre, artrite, orquite. Tratamento: Talidomida (padrão-ouro no Brasil, exceto mulheres em idade fértil) ou Pentoxifilina/Corticoides.
5. Prevenção de Incapacidades e Estigma
A hanseníase carrega um estigma milenar. O termo “lepra” foi banido oficialmente no Brasil (Lei nº 9.010/1995) para reduzir o preconceito. A avaliação neurológica simplificada deve ser feita mensalmente para detectar neurites silenciosas.
- Autocuidado: Hidratação da pele, uso de óculos para lagoftalmo, proteção de mãos e pés insensíveis.
- Cirurgia: Descompressão neural (neurólise) em casos de dor intratável ou déficit progressivo.
Conclusão: O Fim da Transmissão
A primeira dose de Rifampicina mata 99,9% dos bacilos viáveis, interrompendo a transmissão imediatamente.
O controle da Hanseníase no Brasil depende da busca ativa de casos, do exame de contatos intradomiciliares (que devem receber vacina BCG para aumentar a imunidade) e do diagnóstico precoce antes que a garra ulnar ou o pé caído se instalem.










